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Ricardo Rio e a bipolaridade natalicia

A quadra natalícia que vivemos é propícia a arremedos de generosidade, uns verdadeiramente genuínos outros indecorosamente oportunistas.

Basta olharmos para as campanhas das grandes superfícies para perceber que por detrás da dádiva de uns cêntimos a uma qualquer associação está uma agressiva campanha de marketing, cujos objectivos são tudo menos solidários.

Outros há, que durante todo o ano exploram os seus trabalhadores, promovem a precariedade, praguejam contra os pobres, invejam a côdea que os beneficiários do RSI recebem, aplaudem as medidas do governo, papagueiam a inevitabilidade da compressão do estado social, ao mesmo tempo que silenciam a manutenção de privilégios e a venda do país a criminosos atentadores dos direitos humanos. Mas que, em tempo de Natal abrem um parêntesis, na esperança que o Deus menino se compadeça e lhes perdoe os pecados do resto do ano.

Há neste comportamento uma espécie de bipolaridade natalícia: Defende-se o empobrecimento dos portugueses nos 350 dias do ano, para nesta quinzena se brincar à caridadezinha.

Vem este preâmbulo a propósito do vereador Ricardo Rio, candidato à Câmara de Braga, que resolveu por estes dias dar com uma mão aquilo que o seu partido tem tirado com o corpo todo.

Nos outros dias do ano, Rio apoia e suporta a enxurrada governamental de medidas que têm contribuído para o aumento do desemprego, da pobreza, da desprotecção social, da exclusão. Mas nestes dias do ano Rio protagoniza uma bem orquestrada campanha mediática, onde aparece, qual pai Natal, a oferecer presentes a crianças carenciadas.

A Ricardo Rio convêm-lhe esquecer, por estes dias, que as crianças que são carenciadas, são-nos todos os dias e são-no muito por culpa do Governo que ele apoia, que se saiba, também todos os dias.

Como escreveu António Gedeão, no seu Poema de Natal, certamente a pensar em gestos como os de Ricardo Rio: “É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem/ de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria (…)”.

Lá por estarmos no Natal não é tempo de nos compadecermos de Ricardo Rio.

No Natal, e nos outros dias todos, é tempo de recusar os caminhos que nos levam à miséria.

E de desmascarar quem dela se serve.