"Braga, capital de quê? Cultura, espaços e seus agentes" foi o mote do debate integrado no Desobedoc - mostra de cinema documental -, que chegou pela primeira vez a Braga, neste fim de semana.
O debate seguiu-se ao documentário “Portugalito”, de Regina Guimarães, e pretendeu abrir a discussão sobre o que é a cultura em Braga, cidade que quer ser capital europeia da cultura. O debate contou com a presença de Alexandre Pinto, da Rádio Mosca, António Rafael, dos Mão Morta, de Helena Carneiro, do Produções Ilimitadas fora D’Horas, de Luís Tarroso Gomes, do Movimento S. Geraldo Cultural , de Maria Manuel Oliveira, arquiteta e docente universitária, de Cláudia Leite, do Theatro Circo.
Para Maria Manuel Oliveira, a cultura está presa num certo dogmatismo e está encapsulada em Braga, quando, na sua opinião, deveria refletir-se na cidade e no quotidiano das pessoas e deve ser reivindicada por elas. Apesar de reconhecer que as capitais da cultura deixam marcas importantes no tempo, muitas das vezes não se sente a contaminação, a passagem o enriquecimento mútuo entre várias frentes e deu o exemplo do Porto e de Guimarães. No seu entender, o S. Geraldo, pode ter um papel importante de dinamização cultura, num espaço aberto, com café, para as formações de várias artes do concelho.
Cláudia Leite referiu a importância de ter uma estratégia na qual as pessoas se revejam. Por isso, para o S. Geraldo estão a ser pensadas formas flexíveis e abertas de dinamização cultural. Reconhece que há falta de espaços de exibição e de criação.
António Rafael referiu que, apesar de pertença a uma banda com décadas de existência e de dimensão nacional, não vive da música e considera-se amador. Disse que Braga não atrai artistas, pelo contrário, saem. Como um dos responsáveis do festival Semibreve, mencionou que a aposta na Casa Rolão, que é agora um espaço multifacetado, tem como propósito não ser só um produto cultural como passar a ser um produtor cultural. Alertou para a falta de serviço educativo artístico, sendo que a oferta na área da Música lhe parece insuficiente, apesar das duas escolas que a cidade dispõe. Alertou ainda para o facto dos financiamentos públicos ficarem quase todos por Lisboa e Porto, sendo a Câmara Municipal a suportar quase todos os custos nesta área
Para Luís Tarroso Gomes Braga vem muita oferta cultural de fora mas pouco se produz na cidade. Sobre a capital europeia da cultura em Braga, manifestou alguma apreensão na medida em que, por exemplo, há ainda enormes diferenças de apoio entre o teatro amador e o profissional, não há espaços para ensaiar, o que obriga as formações a sair de Braga.
Alexandre Pinto deu conta da separação da cidade e a Universidade do Minho e que a massa estudantil com Bolonha deixou de ter tempo para participar nos grupos culturais
Helena Carneiro disse que em Braga não se sentem as dinâmicas artísticas e culturais. E que, em Braga, cidade do Barroco, a arte do parecer tornou-se hábil em tornar importante coisas que são feitas fora. O PIFH, associação de teatro amador desde 2000, não tem subsídios e só por uma vez teve um espetáculo no Theatro Circo porque choveu no Mimarte. No seu entender, não há palcos para dar visibilidade e bastaria que o Theatro Circo abrisse o espaço e desse apoio logístico.
Do público houve intervenções que deram conta que há condições suficientes em Braga para a dinamização cultural, como o S. Geraldo e a Confiança. Não há é vontade política e não basta ficar à espera dos fundos comunitários.
Pedro Soares, deputado do Bloco de Esquerda, mencionou a necessidade estratégica de criar públicos e condições para a produção cultural e de contrariar décadas de uma visão populista e eleitoralista da cultura, dando maior relevo às associações e formação marginais. Deu o exemplo da Confiança como paradigma de como se olha para a cultura e para o património em Braga.
Alexandra Vieira, deputada municipal do Bloco de Esquerda, lançou o desafio ao Theatro Circo, entidade que está a projetar o S. Geraldo, no sentido de auscultar os agentes culturais sobre o que pode ser um espaço cultural como o S. Geraldo, tendo como referência experiências coletivas desenvolvidas noutras cidades.
A mostra de cinema insubmisso chegou pela primeira vez a Braga, após cindo anos de existência. Durante quase dois dias passaram 15 filmes, alguns premiados e uma antestreia nacional, “Luz Obscura”, de Susana de Sousa Dias. A cada sessão seguiram-se debates e ainda houve dois concertos com artistas residentes. A Coordenadora Concelhia do BE considerou a iniciativa como uma pedra no charco no panorama cultural de Braga e destacou que a a adesão do público bracarense ao Desobedoc superou as expetativas.