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Bloco vota contra alienação da Fábrica Confiança

Declaração política do/a deputado/a do Bloco na Assembleia Municipal de Braga na discussão da venda da Fábrica Confiança a provados para instalação de uma residência de luxo. Bloco de Esquerda votou contra.

 

É notável e digno de registo, pelo que, dizemos ao senhor Presidente da Câmara e respetivo executivo municipal, mas também a todos os cidadãos e cidadãs bracarenses, incluindo os senhores presidentes de junta, aqui presentes, o seguinte:

Imaginem que o cidadão Ricardo Rio, que ganhou com maioria absoluta e que considera isso um cheque em branco para fazer o que lhe apetece com a cidade, usava toda a energia, tenacidade, criatividade, diligência, perseverança e capacidade negocial para defender os verdadeiros interesses da cidade e do concelho e dos que nela habitam. Então os Planos de Mobilidade, habitação e ambiente, só para dar alguns exemplos, estariam, já para lá da fase do plano, em plena execução, ou mesmo em conclusão!

Infelizmente, toda essa energia e dinamismo têm sido utilizados com o fim único de materializar a alienação de um bem patrimonial que é dos bracarenses, a Fábrica Confiança, paga a pronto com o dinheiro de todos, à data por um valor acima do de mercado, com o apoio do vereador do PSD, o atual presidente de câmara.

Com tanta imaginação e criatividade, tenacidade e perseverança, se o problema é de liquidez, não podia já ter encontrado outras soluções que evitem a alienação de um imóvel em vias de classificação?

Reparem Senhores Membros da Assembleia, caros concidadãos e caras concidadãs, que a alienação da Confiança em nada favorece a cidade de Braga e os seus habitantes, tão pouco resolve os problemas de tesouraria da Câmara Municipal; favorece, isso sim, os interesses privados num mero ato de venda especulativa.

Um espaço em vias de classificação está prestes a ser alienado para que sejam construídos 300 apartamentos ardilosamente designados por “residência universitária”. De facto, são apartamentos, supostamente para estudantes, num edifício de luxo, com sete pisos acima do solo e dois subterrâneos. Esta é a finalidade principal, secundarizando, senão abafando, por completo o edifício histórico.

Deixamos, pois, dois motes à reflexão de quem está prestes a votar a venda do edifico que é o último vestígio arquitetónico da época industrial de Braga e para todos que nos ouvem nesta sala, uma vez que esta é das poucas assembleias municipais que não transmite as suas reuniões via internet:

Primeiro:

Não vimos tanta energia e tenacidade na resolução do problema habitacional (por exemplo o Bairro do Picoto e o Plano Municipal de Habitação para candidatura ao Programa Primeiro Direito), o Plano de Mobilidade e o plano arbóreo, entre muitos outros.

Segundo mote para reflexão:

Toda esta perseverança, supostamente para resolver um problema de liquidez, representa, verdadeiramente, um negócio da China para o comprador. Compra barato, com a possibilidade de alienar o que lhe apetecer, assim realizando mais‑valias, logo no dia seguinte, e até vender os ditos alojamentos como apartamentos isolados.

É assim que Dr. Ricardo Rio pretende defender o património da nossa bimilenar cidade?

Senhor Presidente, faça aquilo para que foi mandatado pelos bracarenses: aplique toda a sua energia, criatividade, proatividade, perseverança e persistência, como servidor público transitório, defensor do bem comum, e deixe a Confiança na esfera municipal. Não queira escrever esta página trágica desta tão martirizada e vilipendiada cidade. Deixe de ser agente imobiliário, para o qual, aliás lhe reconhecemos jeito, e dedique-se a melhorar a vida dos que habitam no conselho.

Repetimos, deixe a Confiança para todos os bracarenses e para quem a quer estimar e preservar; que se orgulha do seu património classificado, e que quer dar o melhor uso que pode ter naquela zona da cidade. Faça o favor de servir o bem comum, pois foi para isso que foi eleito, dialogue e seja democrata.

Fica, ainda, um alerta a todos a e a todas que aqui, hoje, vão votar:

As maiorias absolutas, e já todos o aprendemos, por vezes da pior maneira, representam cheques em branco a quem ganha as eleições. Não são duas linhas num programa que legitimam decisões arbitrárias como a que aqui nos traz hoje, disparatada e, o mais grave, que representa mais um atentado ao património, à História e à memória da cidade de Braga e de quem nela habita.

Recordamos a todos os presentes que o processo não está concluído e que o dossiê de 180 páginas que chegou às nossas mãos está cheio de zonas nublosas quanto à salvaguarda do edifício.

Sabemos quão difícil é hoje corrigir tantos erros do passado, cometidos não obstante os alertas de cidadãos interessados e informados. Infelizmente, não aprendemos com os erros e deixamos em roda livre autarcas e seus apoiantes que apenas vêem o interesse privado, o lucro fácil e o favor a clientelas de índole, no mínimo duvidosa. No fundo dando aparência de interesse público, ou mesmo qualificando como tal, meros interesses privados, pessoais ou de grupo.

Todos somos livres de utilizar o voto que nos foi conferido da forma que entendamos estar de acordo com a vontade dos munícipes que nos elegeram. Mas, uma coisa é certa, alguns de nós serão recordados por tudo o que fizeram para salvar o património da cidade de Braga, neste caso a Fábrica Confiança; outros serão apontados como cúmplices na sua alienação e desqualificação.

 

O Grupo Municipal do Bloco de Esquerda

Alexandra Vieira António Lima