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Elevador social, o conceito predileto do eduquês neoliberal

Nos discursos políticos e nos artigos de opinião proliferam expressões usadas avulso e à medida, sem que em momento algum seja explicitado o seu sentido e alcance político, para não falar do rigor científico. A expressão elevador social é um dos melhores exemplos de como vocábulos entram no linguajar comum e político e o seu uso é naturalizado.

 

A pós-modernidade, expressão ela própria pouco explicada, trouxe a polissemia e a “criatividade” concetual distante do rigor científico que advém do trabalho empírico e da análise teórica, e tornou disponíveis expressões e conceitos para qualquer utilização.

 

Há exemplos de usos naturalizados de conceitos e de expressões que, pela sua extrema e apurada validade científica, se definem a eles próprios e são, por assim dizer, sínteses de um pensamento complexo. O conceito de hegemonia, criado por Gramsci, entrou no léxico e designa, sem grandes interpretações divergentes, aquele pensamento, corrente ou ideia que se tornam dominantes num determinado período num dado contexto social, político, económico e cultural.

 

Nos debates na atual legislatura sobre Educação, retenção e sucesso, ouve-se com frequência a expressão elevador social, como sendo uma das funções ou da escola e que, supostamente, está “avariado”. Julgamos, mas não temos a certeza de ser esse o sentido atribuído pelos defensores desta expressão, de que quanto mais elevada é a escolaridade, maior é a possibilidade de as pessoas ascenderem na escala social.

 

Ora, onde é que esta expressão elevador social é fátua e débil? Temos em Portugal os jovens melhor preparados de sempre, mas o nível de vida, a estabilidade profissional, os direitos laborais e a capacidade de constituir família são muito diferentes, para pior, dos pais. Já não causa admiração sermos atendidos num qualquer balcão por uma pessoa licenciada em Filosofia ou que desistiu de tentar ser professor.

 

Numa remota possibilidade de, através da escolaridade, todos e todas poderem apanhar, julgamos que no sentido ascendente, esse elevador social, se não estivesse avariado, alcançaríamos um estádio de desenvolvimento muito semelhante ao que Marx e Engels defendiam, a sociedade sem classes. Ora aqui é que seria a subida, supomos que de elevador, do diabo das profundezas do inferno ao mundo terreno e já quase vislumbramos o ar aterrado dos defensores da meritocracia.

 

Esta outra expressão neoliberal, meritocracia, merece questionamento. Surge associada à ideia de elevador social, mas ignora que nem todos os alunos e alunas se encontram no mesmo ponto de partida quando iniciam a escolaridade e que essa diferença, se não for tida em conta, terá repercussões ao longo de toda a vida escolar.

 

Dito de outro modo, o elevador social, defendido por quem considera que a expressão com fundamento, revela na realidade um pensamento que tem por base a ideia de que só alguns terão o sucesso e o mérito que lhes permitirá a suposta ascensão social, desde que façam o necessário esforço individual nesse sentido e à escola só compete proporcionar as condições para esse sucesso. Assim, a expressão elevador social é apenas uma expressão ideologicamente comprometida e não um desiderato da escola pública.

 

O que a escolaridade de 12 anos permite, sem esquecer o alargamento da educação de infância aos primeiros anos de vida nem o ensino superior, são formas múltiplas de diminuir as desigualdades sociais, num primeiro momento, ao democratizar o acesso a bens culturais e ao Conhecimento, ao promover o espírito critico, o saber estar no Mundo e com os outros, em toda a sua diversidade e diferenças, em sintonia, desejável e urgente, com o planeta e de alcançar a realização profissional. Nesta perspetiva da Educação, o enfoque está na cidadania, ativa e crítica, capaz de questionar, de reivindicar e, sobretudo, de desmontar discursos e opiniões vazias de sentido que ajudam a perpetuar as desigualdades e a garantir as formas de reprodução social.